Impressos

Documentos Impressos

O espólio científico de Francisco de Arruda Furtado integra 114 documentos impressos:

  • 69 separatas (essencialmente, monografias especializadas e catálogos de coleções privadas e de museus de história natural),
  • 31 livros,
  • 14 jornais e recortes de imprensa.

O conjunto encontra-se dividido em dois núcleos:

  • um primeiro, associado ao espólio manuscrito, com 4 livros, 67 separatas e 14 jornais e recortes de imprensa, preservado no Arquivo Histórico do Museu;
  • um segundo, composto por 27 livros e 2 separatas, preservado na Biblioteca do Museu.

Esta organização decorre da história do arquivo. Doado o conjunto, em 1953, por Dulcemina Arruda Furtado, viúva do filho de Arruda Furtado, os livros foram integrados, a 31 de dezembro desse ano, no fundo bibliográfico da Biblioteca e as restantes publicações avulsas, na sua quase totalidade, preservados junto do espólio manuscrito. É provável que, por essa altura, se tenha mantido uma organização pré-existente: em documento datado de 1888, refere-se ‘uma pasta com folhetos, acompanhados de catálogo’ e ‘uma pasta com catálogos’, descrições correspondentes a duas pastas originais nas quais se conservam a maior parte das 69 separatas já mencionadas.

A grande maioria, se não perto da totalidade dos exemplares, ostenta marcas de propriedade sob duas formas: ex-libris manuscrito de Arruda Furtado, em quadrícula de papel recortado, aposto na contracapa; e/ou assinatura manuscrita, na folha de rosto, ou primeira página, de cada trabalho. Quase todos os impressos apresentam ainda observações, comentários e anotações gráficas de Arruda Furtado, dando conta de métodos e ideias e de avanços e recuos na sua investigação. Prolongamento e complemento dos muitos cadernos e folhas manuscritas, estas notas conferem a estes impressos um valor significativo para uma mais completa e detalhada compreensão do seu pensamento. Destaca-se, por exemplo, um exemplar do estudo On Viquesnelia Atlantica (1881), profusamente revisto, comentado e corrigido pelo próprio Arruda, e, ainda, uma cópia dos Materiaes para o estudo anthropologico dos povos açorianos (1884), com observações manuscritas do próprio, acompanhadas de transcrições de comentários ao trabalho de Teófilo Braga (1843-1924) e José Leite de Vasconcelos (1858-1941). Apensas a esta monografia, encontram-se, aliás, duas cartas originais de Braga e Vasconcelos, felicitando Arruda Furtado pelo estudo das origens do povo micaelense e agradecendo o envio do mesmo.

Mais de metade dos impressos ostenta dedicatórias manuscritas dos próprios autores, oferecendo os seus trabalhos a Arruda. De destacar, entre muitos, a edição de The Geographical Distribution of Animals (2 volumes, 1876) de Alfred Russell Wallace (1823-1913), oferecida por Charles Darwin (1809-1882), em 1881, na sequência do primeiro contacto do jovem açoriano e, ainda, um exemplar do On the Origin of Species (1878, 6ª ed.), com prova fotográfica em albumina do retrato do Darwin, aposto à contracapa.

Impressos do espólio científico de Arruda Furtado

Pastas de cartão originais de Arruda Furtado com publicações avulsas, no Espólio Arruda Furtado do Arquivo Histórico do MUHNAC-MUL.

Numa cópia das Notas psychologicas e ethologicas sobre o povo português (1886), oferecida por Arruda a José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907), o naturalista açoriano lista perto de 40 ofertas, dando conta da sua inserção nos círculos intelectuais e científicos portugueses de finais de Oitocentos. Aos naturalistas com quem partilha funções no Museu Nacional de Lisboa, entre os quais o ornitólogo José Augusto de Sousa (1837-1889), o botânico Jules Daveau (1852-1909), os antropólogos Ferraz de Macedo (1845-1907) e Eduardo Burnay (1853-1924), Albert Girard (1860-1914) e, claro, Bocage, somam-se alguns dos mais conceituados geólogos, etnógrafos e filólogos da época: Paul Choffat (1849-1919) e Nery Delgado (1835-1909), Aniceto Gonçalves Viana (1840-1914), Consiglieri Pedro (1851-1910) e Leite Vasconcelos. Finalmente, Arruda Furtado relaciona-se, também, com algumas das figuras mais destacadas do pensamento positivista em Portugal, como Adolfo Coelho (1847-1919) e Teófilo Braga, e dos circuitos jornalísticos associados, entre os quais Brito Aranha (1833-1914) e Francisco Maria Supico (1830-1911).

Em vida, Arruda Furtado possuía uma biblioteca pessoal mais volumosa, ultrapassando os 114 títulos atualmente à guarda do MUHNAC. O Catálogo da Livraria de Arruda Furtado, inventário manuscrito, redigido em 1888, já depois da sua morte, conservado no espólio manuscrito doado pela família, revela uma biblioteca bem apetrechada, com 667 títulos (743 volumes), representativa dos principais interesses e preocupações científicas de Arruda Furtado. O silêncio das fontes não permite, todavia, descortinar eventuais dispersões anteriores ou/posteriores à doação de 1953. Aliás, o manuscrito datiloscópico ‘Papéis de Arruda Furtado’, único inventário associado à doação conhecido, é omisso no que toca ao detalhe dos impressos entregues.

Ex-libris de Arruda Furtado em papel recortado. MUL, Arquivo Histórico, Espólio Arruda Furtado.

Ex-libris de Arruda Furtado em papel recortado. MUL-MUHNAC, Arquivo Histórico, Espólio Arruda Furtado.

De acordo com este inventário, os livros, arrumados num único móvel, com dois níveis (um superior, com três prateleiras, e um inferior, com duas prateleiras), encontravam-se organizados segundo os interesses de Arruda Furtado: nas prateleiras superiores, as matérias científicas; nas inferiores, os restantes assuntos. Predominam as publicações de história natural (485 títulos) e de antropologia, etnologia e etnografia (33 títulos). No seu conjunto, a biblioteca revela que Arruda Furtado seguia, a par e passo, a investigação científica desenvolvida na época: 432 do total dos 667 títulos são obras publicadas entre 1861 e 1887, ano em que morreu.

As leituras de Arruda Furtado no campo da antropologia, em particular da antropologia física, incluem títulos de alguns dos mais destacados autores da época, entre os quais Pierre Paul Broca (1824–1880), Élisée Reclus (1830-1905), Paul Topinard (1830–1911) e Gustave Le Bon (1841–1931).

No que à história natural diz respeito, a diversidade dos assuntos representados retrata a ampla conceção de Arruda Furtado da diversidade natural: mastozoologia (49 títulos), aracnologia (32), ornitologia (14), entomologia (11), herpetologia (9), botânica (35), mineralogia e geologia (14). Não obstante, predominam as obras relacionadas com malacologia, destacando-se, em número, os estudos dos franceses Pierre Arthur Morelet (1809-1894) e Henri Drouet (1829-1900) sobre a fauna malacológica de Portugal, continental e insular, e, ainda, os de Samuel Pickworth Woodward (1821-1865) sobre a classificação taxonómica e geográfica dos moluscos.

São precisamente estas preocupações de Arruda Furtado com os fenómenos de distribuição e migração, e com a classificação zoogeográfica das espécies que explicam a presença de muitos dos trabalhos de Thomas Vernon Wollaston (1822-1878), Alfred Wallace (1823-1913), Carl Friedrich Claus (1835-1899), e Gustave Planchon (1833-1900), cujos estudos de fisiologia vegetal em muito contribuem, na época, para as primeiras classificações geobotânicas.

De destacar, ainda, a presença dos estudos de Paul Bert (1833-1886), cujas investigações sobre enxertia animal, tecidos animais e efeitos fisiológicos das variabilidades ambientais, vão ao encontro do pensamento de Arruda Furtado acerca da relevância dos métodos da anatomia comparada como complemento do estudo da morfologia externa para efeitos de classificação, assim como a importância dos fatores externos no processo de adaptação evolutiva das espécies.

De salientar ainda, a especial atenção conferida à ‘vulgarização científica’, expressão usada pelo próprio Arruda. Cerca de 40% dos títulos são manuais de ensino, guias populares e compêndios abreviados, refletindo a sua filiação no ideário positivista no âmbito do qual a divulgação da ciência é assumida como uma missão do cientista.

Apesar do predomínio das matérias científicas, o inventário de 1888 refere-se, provavelmente, à biblioteca da residência de Arruda Furtado, uma vez que lista obras da mulher, Adelina Arruda Furtado, e do filho Carlos. Assim, multiplicam-se romances e novelas de alguns dos vultos maiores da literatura portuguesa e estrangeira da época (Eça de Queirós, Júlio Dinis, Antero de Quental, Victor Hugo, Émile Zola); exemplos de literatura de cordel e feminina; contos infantis e manuais de ensino elementar; títulos relacionados com o espaço doméstico (livros de cozinha e de economia doméstica), bem como outros associados a convicções religiosas (bíblias e catecismos) e gostos pessoais (um conjunto significativo de partituras de óperas de Bellini, Rossini e Mozart). Alguns dos volumes preservados no MUHNAC conservam o registo manuscrito de palavras de afeto de Arruda Furtado para a família.

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